Um ano depois das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024, o estado apresenta um quadro de reconstrução desigual. Nas cidades do Vale do Taquari, algumas ruas foram reconstruídas e novos sistemas de drenagem foram instalados. Em outras comunidades, famílias ainda vivem em casas com marcas d'água nas paredes e sem perspectiva clara de quando a normalidade voltará.

O Atlas Vivo percorreu quatro municípios afetados para fazer um balanço do que mudou — e do que não mudou — desde a tragédia.

O que avançou

A infraestrutura viária foi a área com maior avanço visível. Das 1.400 pontes danificadas ou destruídas, 78% foram reconstruídas ou receberam estruturas provisórias que permitem o tráfego. Estradas que ficaram meses intransitáveis voltaram a funcionar, permitindo que agricultores voltassem a escoar a produção.

O sistema de alertas meteorológicos também foi significativamente aprimorado. A Defesa Civil estadual instalou 340 novos sensores de nível de rios e implementou um sistema de notificação por SMS que alcança municípios em risco com até seis horas de antecedência.

O que ficou para trás

A habitação é o ponto mais crítico. Das 80.000 famílias que perderam suas casas, apenas 23% receberam alguma forma de solução habitacional definitiva — seja reconstrução no mesmo local, seja reassentamento em área segura. O restante ainda aguarda em casas alugadas com auxílio governamental, em casas de parentes ou em situações precárias.

O problema é estrutural: muitas das casas destruídas estavam em áreas de risco que não deveriam ter sido habitadas. Reconstruir no mesmo lugar seria repetir o erro. Mas encontrar terrenos seguros, aprovar projetos e construir novas moradias é um processo lento que o ritmo da burocracia dificulta ainda mais.

O que ainda preocupa

Especialistas em hidrologia alertam que as condições que tornaram as enchentes de 2024 tão devastadoras — combinação de eventos climáticos extremos com décadas de ocupação irregular de áreas de várzea — não foram resolvidas. A próxima grande chuva encontrará um estado mais preparado em termos de alertas, mas ainda vulnerável em termos de ocupação territorial.